Vladimir Nabokov

NABOKV-L post 0008724, Sat, 11 Oct 2003 10:25:11 -0700

Subject
Nabokov's Poruguese translator
Date
Body
EDNOTE. NABOKV-L thanks Jansy Berndt de Souza Mello for thsi item.
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Nabokv-L:
Here we have news about Nabokov and one of his Portuguese translators Jorio Dauster. The text (supplied below) is quite interesting, but no machine translation is available! I¬īm only writing some quick notes about the article -- an interview for the magazine "Valor." It focuses on Dauster¬īs ideas about translation. Besides Nabokov, Dauster has translated Salinger¬īs The Catcher in the Rye in 1965. His translation of VN¬īs Pale Fire will soon appear in a second edition. He managed to keep up the "rythmic structure" of Shade very succesfully.

The 66 year-old ex-Ambassator Dauster has lived in Berlin, Prague among other countries, and is a competent tennis and chess player. He has written articles about VN and translated "Mashenka", " Lolita", " Pale Fire" , "Strong Opinions" and several other VN novels. Recently the new edition of Dauster¬īs translation of Lolita has reached 900 thousand readers. He is translating Ada at the present moment.
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----- Original Message -----
From: Jorio Dauster
To: Jansy Berndt de Souza Mello
Sent: Saturday, October 11, 2003 11:27 AM
Subject: entrevista





Literatura Tradutor apaixonado, Jório Dauster faz novos passeios pela mente do criador de Lolita.

Na intimidade de Vladimir Nabokov
Por Maria Helena Passos


Foto: Leo Pinheiro/Valor

O carioca Dauster: mais de 40 anos de dedicação ao trabalho de traduzir autores como o russo Nabokov e o americano Salinger

Se ninguém conhece melhor a alma de Lolita do que Vladimir Vladimirovitch Nabokov, criador da célebre personagem-título da obra lançada na França em 1955, pode-se dizer que poucos brasileiros têm mais intimidade com a mente do autor russo do que o ex-embaixador, ex-executivo e consultor Jorio Dauster de Magalhães e Silva. E é assim que ele próprio vê o ofício de tradutor. Como mero "artesão", Dauster dedica-se à tradução por já quase 40 dos seus 66 anos de idade, quase sempre movido pela paixão inspirada pelo texto de Nabokov, de quem já traduziu oito títulos do inglês para o português. "Ao traduzir, você atinge a intimidade mental do escritor", define ele, co-responsável, em 1965, pela aparição no Brasil do incomparável bestseller do norte-americano Jerome David Salinger, "O Apanhador no Campo de Centeio".

Um dos produtos dessa intimidade com Nabokov chegou, em junho √ļltimo, a at√© no m√≠nimo 900 mil leitores potenciais, com o lan√ßamento da Biblioteca Folha/Globo acoplando Lolita gratuitamente √†s edi√ß√Ķes dominicais dos di√°rios "O Globo" e "Folha de S√£o Paulo".

A ousadia editorial de despejar uma tiragem milionária no mercado, em apenas duas semanas, multiplicou exponencialmente a divulgação da obra no Brasil: até então, o texto traduzido pelo consultor somava tiragem de 6 mil exemplares, pela Companhia das Letras.

Est√° ainda por ser apurada a rea√ß√£o de uma plat√©ia t√£o ampla, sobretudo para os padr√Ķes brasileiros, diante de um texto que foi t√£o pol√™mico, como esse. Escrito originalmente em ingl√™s, o livro de Nabokov surgiu timidamente em Paris, pela Olympia Presse. Alvoro√ßou a parcela moralista da sociedade da √©poca, c√©lere ao reduzir a densa psicologia das personagens multifacetadas de Lolita a mero encontro entre um "velho tarado" e "uma menina ing√™nua". Foi proibido na Fran√ßa e levou tr√™s anos para aparecer na Inglaterra e nos EUA, em 1958.

De todo modo, quem quer que tenha se deliciado com o produto da ousadia editorial do brinde de lançamento da Biblioteca Folha/Globo pode se preparar em 2004 para uma nova chance de chegar mais perto da mente de Nabokov em português, por intermédio de Dauster: sai em agosto, pela Companhia das Letras uma reedição de "Fogo Pálido".

A obra, como resume seu tradutor, consiste de "comentários feitos por um rei louco a um poema biográfico de 999 versos, divididos em quatro cantos absolutamente simétricos, cujo autor fora recentemente morto a tiros (por um engano do assassino)". Residiu aí o feitiço maior que atraiu Dauster a empreender sua primeira tradução de Nabokov, dedicada a um livro por muitos críticos considerado a melhor produção do autor russo. Ela saiu no Brasil em 1985, pela Editora Guanabara, e depois foi reeditada pelo Círculo do Livro.

Homem dado a enfrentar desafios como lazer, o ex-embaixador, ent√£o representante do Brasil na Organiza√ß√£o Internacional do Caf√©, em Londres, usava o hor√°rio do almo√ßo para jogar sinuca nos dias chuvosos e, naqueles mais raros, quando o sol brilhava, ia ao t√™nis. Invenc√≠vel na pr√°tica mais freq√ľente, Dauster teve, por√©m, que recorrer ao poeta e tamb√©m diplomata S√©rgio Duarte, ex-embaixador brasileiro na Nicar√°gua, quando se deparou com a m√©trica do poema de Nabokov. Composto em decass√≠labos rimados dois a dois, o tradutor julgou imprescind√≠vel manter a estrutura r√≠tmica.

"Seria um crime n√£o faz√™-lo", diz o exigente e disciplinado Dauster, ex-aluno do Col√©gio Militar do Rio de Janeiro. A tradu√ß√£o do poema logrou "o benepl√°cito" dos tradutores Paulo R√≥nai e seu colega "imortal" Ant√īnio Houaiss. S√≥ ent√£o, ele e Duarte terminaram o texto.

Filho de m√©dico e professora em uma fam√≠lia da classe m√©dia carioca, Dauster desde jovem gosta de desafios. Traiu o teste vocacional, desviando-se da publicidade, que o fascinava, e fez-se diligente servidor p√ļblico. Saiu do Instituto Rio Branco em 1964, como primeiro da classe. J√° vice-c√īnsul do Brasil em Montreal, dono de bom conhecimento de ingl√™s, espanhol e franc√™s, fez, no ano seguinte, sua primeira incurs√£o no "hobby" preferido. At√© ent√£o leitor voraz de literatura russa e francesa em portugu√™s, foi irresistivelmente atra√≠do pela "forma √°gil, muitas vezes cheia de humor, com que, sem perda de um forte componente emocional, J.D Salinger soube retratar as ang√ļstias do adolescente diante das falsidades do mundo adulto em 'O Apanhador no Campo de Centeio". E decidiu, como diz, "trazer o livro para mais perto de si". Dauster traduziu em parceria com os colegas diplomatas Ant√īnio Rocha e √Ālvaro Alencar. Por essa √©poca, j√° havia se deparado com a Lolita de Nabokov em portugu√™s. S√≥ a leria no original, "com muito maior cuidado e prazer", bem mais tarde.

No primeiro contato, deixou-se "levar pela curiosidade quanto ao destino dos personagens e o encaminhamento da trama, sacrificando os pormenores do relato e as artimanhas da forma". E que pormenores! "√Č como ir de uma cidade a outra pela via expressa, quando as estradinhas vicinais poderiam esconder belas paisagens, lugarejos cheios de charme. Em Nabokov, isso √© particularmente empobrecedor, pois ele √© um mestre da linguagem, um escultor de imagens." Dauster diz que, para se ler bem Nabokov, √© preciso rel√™-lo v√°rias vezes. "A cada nova visita", diz, "se descobrir√° mais um coelhinho que estava, at√© ent√£o, escondido na cartola".

Entre autor e tradutor h√° v√°rias coincid√™ncias. Nabokov teve o t√™nis entre os esportes que praticou, foi tradutor (mas para ganhar a vida) quando se exilou da R√ļssia bolchevique em Berlim, e era ex√≠mio enxadrista, qualidade perseguida com afinco pelo ex-embaixador brasileiro. Dauster tamb√©m tem uma queda e tanto por met√°foras.

Em artigo intitulado "A Lolita de Nabokov ou o desejo como obsess√£o", Dauster dispende um par√°grafo para resumir o enredo do livro. No trecho seguinte, sai-se com esta: "√Č √≥bvio que este resumo faz tanta justi√ßa ao livro quanto a vis√£o de um bloco de m√°rmore pode sugerir a forma que lhe ser√° dada pelo cinzel do escultor." Como diplomata, met√°foras tamb√©m lhe seriam √ļteis.

Por duas vezes, Jorio foi relegado ao ostracismo no Minist√©rio das Rela√ß√Ķes Exteriores. Irm√£o de Bruno Dauster, integrante de organiza√ß√£o clandestina durante o regime militar, foi tido da esquerda do Itamaraty. S√≥ logrou promo√ß√£o na diplomacia durante o governo Geisel. A tradu√ß√£o, como se viu, floresceu no per√≠odo da geladeira.

Mais tarde, j√° coroado profissional competente por sua gest√£o √† frente da representa√ß√£o da OIC em Londres, desmontou, na presid√™ncia do Instituto Brasileiro do Caf√©, um sistema de quotas para exporta√ß√£o de car√°ter quase heredit√°rio. E criou o Fundo de Assist√™ncia √† Cafeicultura, que destinava recursos aos exportadores para equilibrar o mercado. Santo rem√©dio para quem j√° tivera o gosto amargo de enfrentar, em 1986, a ger√™ncia de um mega-esc√Ęndalo - a "Opera√ß√£o Patr√≠cia". Nele, o √īnus de malograda a√ß√£o especulativa na Bolsa de Londres caiu no colo do Tesouro Nacional.

Dauster ganhou fama de "saber ouvir, saber at√© onde transigir, ser duro sem antipatia e avan√ßar na hora certa", nas palavras do falecido ex-ministro das Rela√ß√Ķes Exteriores, Roberto de Abreu Sodr√©. Mais tarde, seu estilo estrat√©gico aplastaria at√© mesmo o efeito SNI, cujo nariz torcido levou o ex-presidente Jos√© Sarney a preteri-lo, de in√≠cio, para presidir o IBC.

Até gente pouco afeita ao diálogo notou a habilidade do embaixador: ele foi negociador da dívida externa brasileira na gestão de Zélia Cardoso de Mello no então Ministério da Economia. Mas, nos anos 90, o tradutor já enveredava por outros escaninhos da mente de Nabokov. Traduziu, por exemplo, "O Mago e Machenka", um dos 65 contos que o autor escreveu em russo e verteu para o inglês.

Singular entre seus pares, por escrever em dois idiomas - russo, até os 50 anos, e inglês, já nos EUA - Nabokov primou pelo ecletismo: foi poeta, romancista, dramaturgo, tradutor e ensaísta, especialista em insetos como a borboleta e bom goleiro de futebol. Escreveu até em francês - o conto "Mademoiselle O" . "Espero chegar à senhorita em algum momento", diz o igualmente eclético Dauster, que verteu 26 dos contos do escritor.

Foi por sugest√£o da editora que, em 1993, o tradutor, f√£ do americano Thomas Pynchon, recluso como Salinger, traduziu "Leil√£o do Lote 49", trama californiana dos anos 60, na qual o bom-humor do autor faz par ao jeito de ser carioca de Dauster.

Dauster despediu-se do servi√ßo p√ļblico como embaixador do Brasil na Comunidade Europ√©ia. Presidiu, ent√£o, a j√° privatizada Vale do Rio Doce, de Benjamin Steinbruch. Moveu-se ali com a discri√ß√£o requerida pelas circunst√Ęncias. Hoje √© consultor independente. Preside o Instituto de Estudos Pol√≠ticos e Sociais.

Sobra-lhe pouco tempo para a tarefa que a Companhia das Letras planeja levar √†s livrarias em 2005 - o nono Nabokov por Dauster. √Č "Ada", que ele v√™ como um dos t√≠tulos-pico na cordilheira composta pela obra do escritor russo, rival de "Lolita", "Fogo P√°lido" e "The Gift". O enredo √© a rela√ß√£o incestuosa de um casal de irm√£os.

Repleto de maneirismos dos arrogantes protagonistas, o livro tem sido a mais trabalhosa das tradu√ß√Ķes, atividade que demanda muita aten√ß√£o, tempo e pesquisa. "No Brasil, √© mal remunerada e quase totalmente desprezada. S√£o raros os coment√°rios nas resenhas dos livros e quase s√≥ aparecem quando se trata de apontar erros", diz Dauster. "Tende a se confundir com simples diletantismo, quando devia ser sin√īnimo de profissionalismo apaixonado", critica.

O fruto do profissionalismo apaixonado de Dauster nunca brilhou tanto. A Companhia das Letras animou-se a programar lançamentos do autor russo. Sylvian Mifano, sócio da espanhola Mediasat, que responde pela coleção "Biblioteca" na Europa e no Brasil, atestou o efeito entre os livreiros. "Eles dizem que a injeção de Lolitas pelas bancas de jornais deflagrou, nas semanas seguintes, demanda inusitada por obras de Nabokov."
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